O Auto-Retrato
No retrato que me faço - traço a traço - às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore... às vezes me pinto coisas de q nem há mais lembrança... ou coisas que não existem mas que um dia existirão... e, desta lida, em que busco - pouco a pouco - minha eterna semelhança, no final, que restará? Um desenho de criança... Corrigido por um louco!
(M.Quintana)
Comecei muito cedo a lecionar, primeiro como professora substituta, depois CLT, e só então concursada. No início de minha carreira, a inexperiência na profissão e a tentativa de “ensinar” os conteúdos matemáticos me causavam um sentimento de impotência. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia atingir meus objetivos. Trabalhava em uma escola muito simples, meus alunos não tinham muitas perspectivas de vida, aquilo me preocupava, porque queria ajudar, queria vê-los diferentes, poder ampliar suas visões de mundo. Entristecia-me as limitações. Quando me deparava com alguma situação complicada em sala de aula, recorria a meus colegas, professores mais experientes que eu, e que poderiam me ajudar e indicar caminhos para a superação das dificuldades que eu me encontrava. Buscava participar de grupos de estudo e fazer todos os cursos que apareciam, queria aprender mais para poder ensinar melhor.
Em 1997, tive a oportunidade de participar do Projeto Correção de Fluxo[1]. Viajava de Guarapuava a Curitiba para estudar o material junto com um grupo de professores de matemática do Estado, e recebíamos formação para repasse aos demais professores de nosso município. Participei de várias etapas. Considero que esse foi nesta época que começou meu interesse pelas questões ligadas ao ensino e a aprendizagem da matemática e também meu primeiro contato com as idéias da Educação Matemática.
No segundo semestre de 1998, fui convidada a participar de uma especialização em Informática na Educação oferecida pelo Estado do Paraná. A partir dela seriam criados os Núcleos Regionais de Tecnologia[2] (NTE), proposta do Governo Federal[3] (ProInfo) para formação continuada dos professores por conta da inserção dos laboratórios de informática nas escolas estaduais. Além de inserir computadores nas escolas públicas, o ProInfo previa, também a formação de professores-multiplicadores oriundos da rede pública de ensino. Esses professores atuariam nos NTEs e seriam os responsáveis pela formação dos demais professores para o uso da Informática em sala de aula.
Se antes da especialização eu já tinha interesse por tecnologias de informação e comunicação, a partir dela, minha paixão aumentou. Fui afastada das minhas atividades de sala de aula para participar da especialização em regime integral. O curso, realizado em Curitiba, uma parceira do MEC com a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, teve como espaço para as aulas o CETEPAR – Centro de Treinamento do Magistério do Paraná. Ali fiquei por seis meses.
Após a conclusão do curso, em 1999, mudei para Ponta Grossa/PR, onde passei a atuar com o grupo de lá. Esse ano foi muito intenso para minhas aprendizagens. O NTE funcionava dentro da Universidade Estadual de Ponta Grossa e a equipe era formada por três professores da instituição e três professores do Estado, sendo eu uma delas. Trabalhávamos diretamente com a formação continuada de professores no uso das tecnologias, apresentando-lhes as diferentes possibilidades do seu uso na educação. Nossos cursos primavam pelo uso de software educacional, mas já apontavam para o uso da Internet como ferramenta educacional. Nesse processo pude construir bons conhecimentos do uso do computador, seja em softwares de edição de texto ou imagem, de criação de páginas na web ou planilhas eletrônicas, e ainda ferramentas como o correio eletrônico. Além de trabalhar nos cursos com os professores, também recebíamos formação continuada e participávamos de eventos como os Encontros Nacionais do ProInfo.
Em 2000 iniciei meu primeiro curso a distância por meio do computador. Esse curso foi oferecido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e se intitulava Oficina de HTML[4]. O curso tinha como objetivo ensinar-nos a construir páginas na Internet. Esse projeto vinculado ao Laboratório de Estudos Cognitivos – LEC/ UFRGS, foi o primeiro proposto por eles e visava à implementação de um curso a distância para o aperfeiçoamento dos professores-multiplicadores que faziam parte do quadro dos NTEs - em âmbito federal. Nesse curso, tive a possibilidade do encontro, de ouvir, de compartilhar, de aprender, de pesquisar, de participar, de criar redes, por meio da interação e da comunicação.
Essa experiência só fez aumentar minha paixão pelas tecnologias de informação e comunicação e seu uso na educação, e também proporcionar um contato maior com professores. Lembro-me da resistência de muitos colegas professores à entrada de computadores na escola, por achar que seriam substituídos por eles. A falta de conhecimento e de domínio desses recursos os impediam de utilizá-los nos processos de ensino e de aprendizagem.
No início de 2005, mudei para Curitiba/PR, onde integrei a equipe pedagógica de matemática da Secretaria de Estado da Educação do Paraná – SEED, em Curitiba. Esse também foi um momento marcante na minha vida, pois oportunizou fomentar novas ideias a partir do contato direto com professores de matemática e da formação continuada dos mesmos.
De lá para cá, apesar da minha mudança para outros setores dentro da SEED, não me afastei do trabalho com a formação de professores. Estes últimos tempos têm sido muito acentuados para mim, pois todos esses processos contribuíram para o encaminhamento de projetos que me propus.
Entrei no mestrado na linha de Educação Matemática da Universidade Federal do Paraná em 2008, o contato com os educadores na academia e com colegas, por meio das disciplinas, dos seminários, das discussões em grupo, foram fonte de inspiração para focar ainda mais minha pesquisa. Quando volto meu olhar, observo muitas modificações, algumas desejadas, outras inesperadas, mas o fato é que tudo culmina aqui.
Ingressei no Programa de Desenvolvimento Educacional do Paraná (PDE) em 2009, e ainda me agrada imensamente a ideia de discutir as possibilidades de formação continuada de professores de matemática por meio dos recursos tecnológicos disponíveis na web, através da interação e colaboração em grupos virtuais. Acredito que esses recursos podem facilitar e muito as grandes dificuldades encontradas por esses profissionais da educação.
Em todo esse meu processo de formação, uma coisa que sempre observei é que, diariamente, professores, encontram-se diante de novas e inesperadas situações e, assim como eu lá no início da minha carreira, eles precisam tomar decisões mesmo não se sentindo preparados. Destaco que esse fato não é restrito apenas a professores em início de carreira, mesmo aqueles com anos de experiência profissional necessitam discutir situações para superar problemas em sala de aula. Entretanto, a correria do dia-a-dia, o excesso de atividades e atribuições, os impede de reservar momentos para essa socialização.
Assim, defendo a ideia de que professores necessitam de constante interação com outros, seja por meio de redes sociais, grupos, cursos, conversas ou bate-papos para superar dificuldades da profissão docente ou mesmo socializar propostas de trabalho de sucesso e que, com o desenvolvimento da tecnologia, especificamente da Internet, novas opções surgiram para nos auxiliar nesse processo de atualização constante.
[1] Programa de Aceleração de Aprendizagem. Ver: http://www.cenpec.org.br/memoria/index.php?mod=projetos.view.0&id=106
[2] Núcleo de Tecnologia Educacional, órgão vinculado a Secretaria de Estado da Educação, hoje Coordenação Estadual de Tecnologia na Educação. Ver: http://www.diaadia.pr.gov.br/autec/
[3] O Programa Nacional de Informática Educacional (ProInfo) é um programa educacional criado pela Portaria nº 522, de 9 de abril de 1997, pelo Ministério da Educação, para promover o uso pedagógico da informática na rede pública de ensino fundamental e médio.
[4] Linguagem de marcação utilizada para produzir páginas na Web. Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/HTML